Esqueceu sua senha?

Notícias ABVCAP

Empresas devem garantir condições flexíveis a mulheres, diz Priscila Rodrigues Adicionado em 26/03/2021
 

Sócia sênior da Crescera Capital defende que companhias do setor financeiro adotem iniciativas específicas para reter talentos femininos

 

Desde 2008, quando começou a atuar no mercado, a Crescera Capital fez investimentos em mais de 70 empresas. O foco inicial foi em educação, mas ao longo dos anos a gestora que teve o atual ministro da Economia, Paulo Guedes, como sócio fundador, expandiu o escopo de investimentos para outras áreas, como saúde, varejo, consumo, serviços, e inovação e tecnologia. Em comum a todas às investidas está o estímulo de políticas que garantam a igualdade entre homens e mulheres. "Se conseguirmos colocar essa sementinha em todas elas (investidas), começamos a ter uma abrangência maior do ponto de vista do impacto de equidade de gênero na força de trabalho brasileira", diz Priscila Rodrigues, sócia sênior, em entrevista à ABVCAP. 

 

Ao lado de Jaime Cardoso e Daniel Borghi, ela é uma das poucas "key person" (pessoa chave) -- nível anteriormente denominado de "key man" de fundos de private equity no Brasil. Em paralelo ao trabalho como executiva, Priscila atua como mentora aplicada ao mercado financeiro para tentar reter mulheres na indústria. Segundo ela, o primeiro passo é fazer com que companhias, incluindo gestoras, percebam o valor agregado que a diversidade de gênero potencialmente traz. Em seguida, é preciso garantir condições flexíveis para que elas não tenham de optar entre a vida profissional e pessoal, que muitas vezes envolve tarefas domésticas como o cuidado de filhos e dos pais. 

 

"É preciso que as empresas tenham mobilidade e deem condições para que as mulheres possam fazer o seu balanço de vida, entre o pessoal e profissional, sem que tenham que abrir mão de planos, como uma eventual maternidade", defende. Entre as medidas já adotadas por algumas instituições financeiras, menciona um sistema de creche, programas de mentorias liderados por representantes femininas e iniciativas para reabsorver mulheres na força de trabalho. "Isso já tornaria a indústria bem mais aberta", diz. Entre os entraves de ordem cultural, cita a falta de representatividade, a demanda por uma agenda de tempo integral e a falta de equiparação salarial. Confira trechos da entrevista. 

 

Qual o lugar das mulheres nas indústrias de Private Equity e Venture Capital no Brasil? 

 

Existem poucas, assim o como no mercado financeiro como um todo. Private Equity (PE) e Venture Capital (VC) não fogem à regra, com uma situação ainda mais drástica em posições mais altas. Há 22 anos, quando comecei no setor financeiro, era pior. Temos visto na parte de analistas e associadas um interesse crescente por parte de mulheres. Vejo uma melhora, mas a presença feminina ainda é complemente subrepresentada. Poucas delas acabam permanecendo na indústria. 

 

De que forma a pandemia agrava esse quadro desigual para as mulheres? 

 

A pandemia presta um desserviço, e não só no setor financeiro, mas na força de trabalho feminina como um todo. Em diversos grupos de mulheres que participo, o que se comenta é que muitas colegas acabam deixando o mercado para ajudar com tarefas domésticas, cuidado dos filhos, no home schooling, no cuidado dos pais, entre outras atividades. Os lockdowns tornaram ainda mais desafiador esse equilíbrio de atribuições profissionais com o  desafios familiares dentro de casa. E quando temos uma crise, como a atual, essas tarefas domésticas demandam ainda mais atenção. 

 

Quais os gatilhos estruturais específicos do mercado financeiro que dificultam que as mulheres permaneçam? 

 

Trata-se de um mercado, historicamente e predominantemente, masculino. Durante muito tempo não se viu com o olhar correto o eventual impacto da diversidade -- de ter mulheres, ou pessoas com distintos perfis e backgrounds. O "mais do mesmo" era o que vencia. E com pouca referência de mulheres em posições de liderança, a motivação das mais novas em seguir a mesma trilha fica comprometida. Outro ponto, é que o trabalho em PE e VC demanda longas horas, viagens constantes, enfim, uma disponibilidade de agenda a qualquer momento. Isso é um desafio para muitas mulheres, sobretudo para aquelas que buscam o equilíbrio com a vida pessoal em paralelo, eventualmente com filhos. Também temos de enfrentar o dilema da equidade salarial, pois muitas se sentem desestimuladas a ter uma sobrecarga de trabalho e ganhar menos. É uma indústria  rigorosa e demandante. E em algumas situações é preciso ser dura, mais firme, para ser levada a sério, e tem gente que se incomoda em ter de adotar essa postura. São entraves mais de ordem cultural do que de formação. Há muitas mulheres capacitadas no mercado financeiro e nas escolas de negócio do Brasil e do mundo. 

 

De que forma esse cenário pode mudar, também pensando em ações práticas? 

 

Com o aumento da necessidade ou consciência sobre o valor da diversidade, a tendência é que se abram mais oportunidades para que mulheres cresçam no mercado financeiro. Isso vale para as indústrias de PE e VC. Só que não é algo automático. Primeiro, deve-se criar a conscientização de que diversidade traz valor agregado até abrir as próprias empresas para dar acesso a elas, inclusive em postos de liderança. É preciso que as empresas tenham mobilidade e deem condições para que as mulheres possam fazer o seu balanço de vida, entre o pessoal e profissional, sem que tenham que abrir mão de planos, como uma eventual maternidade. Isso já tornaria a indústria bem mais aberta. Hoje algumas medidas já são pré-requisito em grandes bancos, e algumas gestoras vêm se adaptando, a ações como sistema de creche ou apoio aos primeiros anos de maternidade, programas de mentorias liderados por mulheres, reabsorção de mulheres na força de trabalho, entre outras iniciativas. 

 

Como isso é aplicado na Crescera? 

 

Na Crescera, sempre fomos muito abertos à diversidade e temos essa cultura colaborativa. Nunca tive a sensação de ser tratada diferente, do ponto de gênero. Somos poucos sócios, e entre os seis executivos que tocam a companhia há duas mulheres. Ser uma "key person" de fundo ainda não é muito comum, mas tenho tentado puxar cada vez mais mulheres para dentro da empresa. Ter um time diverso possibilita que outras mulheres tenham referências e se motivem. Recentemente também nos tornamos signatários dos Princípios do Empoderamento Feminino, uma iniciativa internacional liderada pela ONU que busca promover a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres no local de trabalho, mercado e comunidade. Encorajamos todas as nossas companhias investidas a também tornarem-se signatárias logo no primeiro ano do investimento, pois entendemos que a adoção de uma cultura de diversidade é o mais efetivo veículo para entrega corporativa nas dimensões de igualdade de gênero da agenda 2030 e das Metas de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Em paralelo, tenho um projeto de mentoria aplicada ao mercado financeiro, para tentar reter mulheres na indústria, buscando identificar quais são os principais desafios e como superá-los.

 

De que forma o investimento em educação, que sempre foi um foco estratégico para a Crescera, ajuda na busca por igualdade de gênero? 

 

Temos uma grande preocupação com aspectos ESG, no geral, em todos os setores de empresas que investimos, incluindo educação. Saúde, educação, consumo, varejo, serviços e tecnologia têm o mesmo mote, por exemplo. Do ponto de vista de equidade, buscamos trazer para todas as investidas um aprimoramento dessa cultura de busca por equidade, em diversos sentidos, e de exercício de um maior protagonismo da mulher no mercado de trabalho. Desde 2008, a Crescera já fez mais de 70 investimentos. Se conseguirmos colocar essa sementinha em todas elas, começamos a ter uma abrangência maior do ponto de vista do impacto de equidade de gênero na força de trabalho. 

 

Por falar em Crescera, vocês devem continuar apostando as fichas no setor de saúde, sobretudo após a fusão da Domicile, investida da Crescera, e Homedical? 

 

Começamos a focar no setor de saúde em 2014. Temos hoje alguns investimentos nesse setor, entre eles um projeto de consolidação de escolas de medicina e serviços para médicos. Começamos a olhar saúde via educação médica, com a Afya Educacional, que listamos na Nasdaq. Desde então olhamos saúde na parte de prestação de serviços. Temos um investimento em consolidação de serviços médicos hospitalares, clínicas, atendimentos primário e secundário em diversas cidades das regiões Sul e Sudeste, com foco fora das grandes capitais. E temos feito desde então outras grandes consolidações na área, pois acreditamos muito nesse setor. Tem muito a fazer, do ponto de vista de melhorias de gestão, processos, acesso e serviços. Temos outro investimento na Vita Participações para consolidação de bancos de sangue e serviços de hemoterapia. E começamos no ano passado um novo projeto de consolidação de serviços médicos a domicílio, com investimento na Domicile Home Care, focada no interior de São Paulo, e fechamos em meados de fevereiro, uma parceria com a Homedical, sediada em Curitiba. Acreditamos muito nessa tese, e estamos falando com outras companhias. Continuaremos investindo em saúde, que é um setor traz muita similaridade com a educação. Além disso, a pandemia trouxe certas oportunidades, com o fortalecimento de segmentos como a telemedicina. O contexto atual torna mais urgente e agiliza mudanças que vinham acontecendo. 

 

Para além de educação e saúde, que outros setores ou segmentos a Crescera está olhando com especial atenção? 

 

Temos foco bastante grande em consumo e varejo, com atenção especial a indústria de alimentos e ao varejo especializado, que é um mercado que acreditamos muito, com as pessoas cada vez mais preocupadas com alimentação saudável. E desde 2012 também temos investido em inovação e tecnologia, sobretudo em VC, mas também em PE. Hoje somos acionistas da Semantix, focada em data analytics e inteligência artificial, e fizemos recentemente um investimento na Nelogica, líder de mercado no segmento de sistemas aplicados ao mercado financeiro. Em resumo: educação, saúde, consumo, varejo, tecnologia, inovação e serviços são focos importantes para nós. 

Fonte: ABVCAP


Comentários


Mapa do Site | Links Úteis | FAQ | Contato | Localização
ABVCAP RJ: Av. Nilo Peçanha nº 50 sala 2901 - Centro - Rio de Janeiro - 20020-906 | Telefone: 55-21-3970-2432
ABVCAP SP: R. Pequetita nº 145, 8º andar, cj 81 - Vila Olimpia - São Paulo - 04552-060 | Telefone +55 11 3106-5025