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Arábia Saudita e startups: como o dinheiro do reino flui no mundo da tecnologia Adicionado em 07/11/2018
 
Em parceria com o SoftBank, governo saudita injeta bilhões em unicórnios enquanto se defende de acusações envolvendo morte de jornalista e violações aos direitos humanos

Há mais ou menos um mês, você provavelmente tem visto a Arábia Saudita constantemente nos noticiários. E por motivos nada nobres: a morte do jornalista Jamal Khashoggi, um saudita ex-apoiador do governo do país e posterior dissidente, dentro do consulado saudita em Istambul (Turquia) gerou a mais recente turbulência do cenário político internacional. E a demora para o esclarecimento total do caso – o regime saudita já admite que o crime foi premeditado por membros do governo, mas nega a participação da família real que governa o país – colocou em possível oposição à Arábia Saudita seu mais poderoso aliado: os Estados Unidos de Donald Trump.

Mas, além do tabuleiro político, o episódio impacta também o mundo dos negócios e, em especial, o das startups. Isso porque, a despeito de ser uma monarquia absolutista em pleno século 21, a Arábia Saudita vem colocando em prática um programa de modernização gradual que tem como elemento fundamental pesados investimentos em tecnologias inovadoras. O Fundo de Investimento Público (PIF, na sigla em inglês) é o principal instrumento dessa política, que visa tanto diversificar as formas de arrecadação do governo quanto atrair investimentos para seu próprio território.

“O fundo soberano saudita vem sendo usado para aquisição de ativos no exterior e diversificar oportunidades econômicas, o que faz sentido para uma economia monoprodutora [quase 70% das exportações sauditas são de petróleo, segundo o Observatório da Complexidade Econômica]. Mas eles também vêm buscando melhorar sua imagem externa”, explica Alberto Pfeifer, doutor em geografia humana pela USP e mestre em relações internacionais pela Fletcher School of Law and Diplomacy, nos Estados Unidos.

Esse processo, que é capitaneado pelo príncipe e herdeiro do reino (e, para muitos, quem de fato manda na Arábia Saudita), Mohammed Bin Salman, e que tem como pano de fundo uma disputa com o Irã por maior influência no Oriente Médio e pela simpatia dos países ocidentais, vem acompanhado de mudanças culturais que tornem o ambiente saudita mais palatável aos gostos deste lado do globo. A volta dos cinemas ao país e a permissão às mulheres para que dirijam carros foram alguns dos avanços recentes – mas que estão longe de tornar “moderno” um país que proíbe festas de aniversário e que se prepara para executar uma mulher por ativismo político.

Paralelamente, são anunciados grandes investimentos no país, como uma megacidade com 33 vezes o tamanho de Nova York e a maior planta de energia solar do mundo. “Está acontecendo uma abertura gradual e controlada do regime, com direitos para as mulheres e investimentos para a tecnologia. Mas, ao mesmo tempo, teocracias como essa têm dificuldades para fazer essa transição, para aceitar a divergência e a convivência com a oposição e a crítica. Então não é de se descartar episódios como esse [do assassinato do jornalista Khashoggi] acontecerem novamente”, aponta Pfeifer.

Venture capital

Mesmo com uma estrutura administrativa tão antiquada, o governo saudita tornou a participação em startups de sucesso como um de seus trunfos econômicos. Sua participação já é bastante influente em unicórnios que estão entre os maiores do mundo, como Uber e WeWork.

Isso acontece por meio do SoftBank Vision Fund, fundo de venture capital criado pela gigante japonesa das telecomunicações no ano passado e que já se tornou o principal investidor do tipo em startups espalhadas pelo mundo. Do capital anunciado de US$ 100 bilhões para investimentos, US$ 45 bilhões são do principal financiador da iniciativa: o Fundo de Investimento Público saudita, sem o qual “não haveria Vision Fund”, de acordo com Bin Salman em entrevista à Bloomberg.

Somente na Uber, são US$ 9,3 bilhões injetados, o que torna o Vision Fund o principal acionista da empresa. Nela, o governo saudita está presente não só por meio do fundo, mas também com uma participação direta de US$ 3,5 bilhões. Já na WeWork, são mais US$ 4,4 bilhões (embora seja um investimento conjunto do Vision Fund com o próprio SoftBank, em que a Arábia Saudita não possui participação formal), enquanto na Cruise Automation, empresa da General Motors para o desenvolvimento de carros autônomos, são US$ 2,2 bilhões.

A fabricante de hardwares Nvidia (US$ 5 bilhões), o app de entregas DoorDash (US$ 535 milhões) e o serviço de comunicação e gerenciamento de projetos corporativos Slack (“mais da metade” de uma rodada de negócios de US$ 250 milhões, segundo a Bloomberg) são outras empresas com participação do fundo bilionário.

E de forma forma direta, sem a intermediação do SoftBank, o PIF tem ainda US$ 20 bilhões em um fundo da gigante Blackstone direcionado a projetos de infraestrutura, e 5% de participação na Tesla – tendo sido o fiador da ideia frustrada de Elon Musk de fechar o capital da empresa, no mês passado.

No Brasil, há apenas dois investimentos do Vision Fund até o momento, segundo a Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (Abvcap): US$ 100 milhões injetados na 99 em 2017 e, recentemente, o mesmo valor na startup de entregas Loggi.

“O Vision Fund dá cheques bem maiores do que o que se costuma fazer nesse mercado de venture capital, um dos poucos que têm tamanho para investir em unicórnios. Ele foi criado justamente para investir nessas startups que cresceram e estão nessa briga feroz de tecnologia em que se queima muito dinheiro”, diz Andrea Minardi, professora de finanças do Insper e diretora da Sociedade Brasileira de Finanças.

Para ela, entretanto, é preciso cautela ao relacionar diretamente os investimentos do Vision Fund com os interesses econômicos sauditas. “Geralmente nessas operações o investidor tem pouca ingerência sobre a carteira de empresas investidas. Mas é claro que acabam se beneficiando dos resultados e terão grande participação nas maiores empresas do futuro”, aposta.

Reputação em risco?

Mas, tendo ou não ingerência, há indícios de que, em alguma medida, o episódio Khashoggi gerou uma turbulência entre os parceiros de negócios. Programada para acontecer na capital saudita Riad no final de outubro, a Iniciativa para Investimentos Futuros, uma conferência que vinha sendo chamada e “Davos no Deserto” e prometia gerar bilhões em investimentos no país, sofreu uma série de cancelamentos depois que cresceram as desconfianças da participação do governo chefiado por Bin Salman no assassinato de Khashoggi.

Mesmo o CEO da Uber, que recebe grande financiamento do país, Dara Khosrowshahi cancelou a presença no evento, se dizendo “muito preocupado” com o desenrolar do caso. O CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, e o próprio secretário do tesouro (cargo equivalente ao ministro da Fazenda brasileiro) dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, também negaram participação. Richard Branson, fundador do grupo Virgin e que vinha negociando pesados investimentos em iniciativas de turismo na Arábia Saudita, anunciou a suspensão de suas relações comerciais com o reino “enquanto as investigações estiverem em andamento”.

Já o fundador do Softbank e maior responsável pelo Vision Fund, o japonês Masayoshi Son, esteve presente na conferência, mas cancelou a apresentação pública que faria durante o evento.

Só nesta semana, mais de um mês após a morte do jornalista, Son se pronunciou sobre o caso e seu relacionamento com os sauditas, dizendo que “por mais horrível que tenha sido esse episódio, não podemos virar as costas às pessoas sauditas, enquanto trabalhamos para ajudar em seus contínuos esforços para reformar e modernizar sua sociedade”. Segundo o japonês, não houve nenhuma empresa se recusando a receber dinheiro do Vision Fund em decorrência da morte de Khashoggi.

Para Alberto Pfeifer, esse é um risco que cada empresa muito ligada ao Vision Fund acabará correndo. “O risco econômico é bem reduzido. Mas o de reputação é muito alto, pelo caráter global dessas corporações. Esse episódio do jornalista foi absolutamente desastroso. Uma empresa que se associe ao país vai acabar sendo afetada, sim”, afirma.

O SoftBank, entretanto, parece disposto a bancar a aposta. Nos últimos meses, tanto o grupo quanto o governo saudita já falaram em estabelecer novos fundos de venture capital para diversificar ainda mais os investimentos, prolongando a parceria. "Isso significa que tivemos um grande retorno do primeiro investimento. Não colocaríamos, como fundo soberano, mais US$ 45 bilhões se não tivéssemos visto um lucro enorme no primeiro ano", disse Bin Salman à Bloomberg, ao prometer um novo investimento semelhante ao anterior nas iniciativas do SoftBank.

Resta saber se novos desdobramentos da investigação de Khashoggi, ou outras polêmicas envolvendo a monarquia no futuro, não abalarão os negócios planejados.

Fonte: época Negócios

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